
Falls Embrace by Lauri Blank
Uma palavra. Disse-a. Amo-te - uma palavra breve. Quantos milhões de palavras eu disse durante a vida. E ouvi. E pensei. Tudo se desfez. Palavras sem inteira significação em si, o professor devia ter razão. Palavras que remetiam umas para as outras e se encostavam umas às outras para se aguentarem na sua rede aérea de sons. Mas houve uma palavra - meu Deus. Uma palavra que eu disse e repercutiu em ti, palavra cheia, quente de sangue, palavra vinda das vísceras, da minha vida inteira, do universo que nela se conglomerava, palavra total. Todas as outras palavras estavam a mais e dispensavam-se e eram uma articulação ridícula de sons e mobilizavam apenas a parte mecânica de mim, a parte frágil e vã. Palavra absoluta no entendimento profundo do meu olhar no teu, palavra infinita como o verbo divino. Recordo-a agora - onde está? Como se desfez? Ou não desfez mas se alterou e resfriou e absorveu apenas a fracção de mim onde estava a ternura triste, o conforto humilde, a compaixão. Não haverá então uma palavra que perdure e me exprima todo para a vida inteira? E não deixe de mim um recanto oculto que não venha à sua chamada e vibre nela desde os mais finos filamentos de si? Uma palavra. Recupero-a agora na minha imaginação doente. Amo-te. Na intimidade exclusiva e ciumenta do nosso olhar mútuo e encantado. Fecha-nos o lençol na claridade difusa do amanhecer, estás perto de mim no intocável da tua doçura. Frágil de névoa. Fímbria de sorriso e de receio, de pavor, no meu olhar embevecido. Uma palavra. A primeira que em toda a minha vida me esgotou o ser. A que foi tão completa e absorvente, que tudo o mais foi um excesso na criação. Deus esgotou em mim, na minha boca, todo o prodígio do seu poder. Ao princípio era a palavra. Eu a soube. E nada mais houve depois dela.
Vergílio Ferreira, in ‘Para Sempre’
Tudo teria sido mais fácil se não tivéssemos deixado passar tanto tempo… Para ambos…
Ficou a palavra, tantas vezes ouvida, tantas vezes proferida…
- Glycerine
Bush - Sixteen Stone
Shooter

Bem!!! FABULOSO! Texto divinalmente bem escolhido. Imagem deliciosamente e esteticamente bem “jogada”! parabéns! Amei. Esta palavra, mesmo que conjugada no Pretérito Perfeito com efeitos retroactivos no futuro, é mais fácil de usar neste contexto do que no seu contexto mais comum. tenho uma relação de estranheza, desconfiança e até de receio desse verbo que não se deixa conjugar assim no meu léxico!
Bem…um dia destes posso colocar esse texto do Vergílio lá pela Teia?!
Um beijo noctívago aos dois.
Comment by su — October 23, 2006 @ 1:43 am
O texto encaixa como uma luva …
A palavra ficou , e o sentimento?! Esse com certeza está algures bem guardado .
Eu sou de opinião que o tempo , pode ser um aliado de facto , mas , pode tembem ser um inimigo.
Deixo um beijito.
Comment by Secreta — October 23, 2006 @ 9:42 am
Su: eu também achei o texto maravilhoso. E aplicava-se na perfeição ao momento, como se tivesse sido escrito propositadamente… O tempo verbal acaba por ser uma questão de pormenor (quando o dizemos parece-nos eterno, ou queremos acreditar que será eterno). Quanto à pergunta (e não podendo vergilio ferreira responder): na minha muito humilde opinião, qualquer canal é óptimo para divulgar a obra de vergílio. Sendo esse canal a Teia, então a resposta é óbvia: é claro que podes usar!
Um beijo grande
Comment by Shooter — October 23, 2006 @ 2:12 pm
Secreta: a duvida permanece quanto ao sentimento… Muito mudou, o sentimento alterou-se. Só não sei se se desfez…
Um beijo grande
Comment by Shooter — October 23, 2006 @ 2:14 pm
A palavra seja qual for o tempo em que é pronunciada é eterna. Existiu, aconteceu, ficou… isso nada o poderá alterar.
Ela não é só o princípio, mas também o fim em si. Nós é que não nos apercebemos disso. Ela nunca mudou, nós sim é que mudamos. Umas vezes para a vermos de outra forma, outras vezes para a deixarmos de ver completamente.
Em tempos tivemos uma conversa na marina de Oeiras e se te recordares na altura disse-te: “não importa o que dizemos hoje. Importa sim o que ouvimos amanhã.”
Continuo a acreditar nisso.
Grande abraço
Comment by Dark Shot — October 23, 2006 @ 4:27 pm
Dark Shot: é preciso mesmo é não a proferir em vão. Sinto que nada foi em vão, e fiquei tranquilo com tudo o que fiz (inclusivé ultimamente). Por vezes acredito mais no “só importa o que dizemos hoje, não o que esperamos ouvir amanhã”.
Grande abraço
Comment by Shooter — October 23, 2006 @ 9:28 pm
Em relação à minha frase, aquilo que quis dizer, não era estar preocupado com o amanhã, era sim termos consciência que o que é de hoje vivemos hoje, o amanhã vivemos depois. Um dia de cada vez, quando o amanhã chegar então logo nos preocupamos com ele. Mas conheço-te bem para saber que estás de consciência tranquila. Isso é o mais importante em tudo.
Grande abraço
Comment by Dark Shot — October 23, 2006 @ 11:02 pm
Ornatos?!!!
: **
Comment by su — October 24, 2006 @ 12:42 am
O importante é o sentido da palavra.Que um dia fez vibrar cada pedaço da alma… Agora pode ser somente uma palavra,uma bela lembrança…já não faz estremecer…
Boa noite
Comment by Anjo — October 24, 2006 @ 1:03 am
Mais um Abeto em termos de correspondência de árvores lá na Teia. Sou de 11 de Julho!! Engraçado!
Deixei comentário também lá na Teia.
Beijinhos grandes…e já agora, Shooter, qual é a tua árvore?
Comment by su — October 25, 2006 @ 11:29 am
Grande escolha literária para ilustrar tão nobre sentimento.

A fasquia está a elevar-se e muito!
Em relação ao resto, cuida-te. Eu sou ateu convicto, mas se fosse a ti, enveredava por um caminho mais espiritual. Umas rezazinhas nunca fizeram mal a ninguém, if you know what i mean…
Abraço aos atiradores
Comment by João — October 28, 2006 @ 1:25 pm